quinta-feira, 25 de junho de 2009

O ameaçado


O ameaçado


É o amor. Terei de me esconder ou de fugir.

Crescem as paredes da sua prisão, como num sonho atroz. A bela

[máscara mudou, mas como sempre é a única. De que me

[servirão os meus talismãs: o exercício das letras, a vaga

[erudição, a aprendizagem das palavras que o agreste Norte

[usou para cantar os seus mares e as suas espadas, a serena

[amizade, os corredores da Biblioteca, as coisas vulgares, os

[hábitos, o jovem amor da minha mãe, a sombra militar dos

[meus mortos, a noite intemporal, o sabor do sonho?

Estar contigo ou não estar contigo é a medida do meu tempo.

O cântaro já se quebra na fonte, o homem já se levanta à voz das

[aves, os que olham pelas janelas já se escureceram, mas a

[sombra não trouxe a paz.

É, sei já bem, o amor: a ansiedade e o alívio de ouvir a tua voz,

[a espera e a memória, o horror de viver no sucessivo.

É o amor com as suas mitologias, com as suas pequenas magias

[inúteis.

Há uma esquina por onde não me atrevo a passar.

Já me cercam os exércitos, as hordas.

(Este quarto é irreal; ela não o viu.)

O nome de uma mulher denuncia-me.

Dói-me uma mulher em todo o corpo.


Poema de Jorge Luis Borges

domingo, 21 de junho de 2009

Marca


O seu baton, meu bem,
marcou mais que meu colarinho.
Agora passo um "sabão" em meu coração:
Não se entregue! Não sou responsável.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Agenda

Nunca gostei de escrever como se estivesse escrevendo em uma agenda, ao mundo cabe (merece) mais que meus dias... sei porém, que todas as coisas que escrevo tem um simbolismo maior que teria minha agenda, mesmo que eu não escreva.
Todo esse silêncio que tomou conta dessas minhas linhas tem motivos: tensão e, talvez, superstição. Mas enquanto a tolice toma conta das paranóias da mente o mundo gira, e a Pitt é que me desculpe, mas ele não gira devagar.
Tudo nesses dias salta dos tons de cinza ao colorido. Começo até a achar que sei alguma coisa. Deixei meu "nome" para adotar outro: agora professor, pelo menos me chamam assim na escola, e eu gosto muito. Mesmo em meus pensamentos mais deslocados não previ isso, não previ como seria tão bom!
Em breve deixarei o bacharelado, pois o discurso me sorriu... vou pesquisar, talvez um dia seja doutor [juntos riremos]. Por hora me dividirei em talvez professor e aprendiz. Quando eu já pensava em mil desculpas, quando pensava em planos "B's" a notícia me toma, lendo Rubem Alves, sentado (recostado) na mesa. Quando já pensava em drásticas mudanças, heis que me descubro mais aqui do que achava... nunca fui tão comum, nunca fui um "lugar comum".

segunda-feira, 15 de junho de 2009

De repente

As pessoas costumam dizer do passado, do presente e do futuro sem notar que se esqueceram de um tempo incabível de ser descrito por verbos e conjugações: "de repente".
De repente tudo acontece ou nada acontece... as flores murcham, os dias viram noite e vice-versa. De repente a boca morde e sente o gosto amargo ou doce do chocolate tocar a língua... e de repente, não mais que de repente, tudo isso se transforma em mera saliva.
De repente o sol da tarde transforma a loira de branquinha em morena jambo (queroperto), transforma as festas agitadas em preguiça (santa - ou não) do dia seguinte.
De repente... tempo mesquinho. Algumas vezes, muda tudo aquilo que levamos uma vida para nos acostumar. A gente se forma, começa tudo de novo... A gente chora, seca tudo de novo. Ama, sofre e recomeça tudo de novo... de repente, só de repente.

sábado, 13 de junho de 2009

Carta dissidente

Eu mentiria se eu dissesse que não sinto medo, e que intervalos de uma música e meia não são eficazes para derrubar uma pessoa forte. Sinto nos dedos a textura do verde do gramado do nosso jardim.
Assim te digo que meu francês não destoa do seu, que não faço bicos porquê não sei competir com os seus e tampouco chegaria a "molequês" de sua alma.
Um ou outro cd, Pato Fu ou Cazuza, conseguem fazer com que eu viaje km's de distância só para cair em teus braços, tendo seu sorriso refletido em espelhos d'água e seus olhares cortando vãos e hall's.
Essa é apenas uma carta dissidente.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Sobre receitas

Dentes de alho, cebolas cristalinas... cada coisa picada aos seus tantos, esperando a manteiga derreter, esperando para serem douradas como as garotas de Copacabana sob o sol de Janeiro.
A brasa esquenta... o alho picado cai, a cebola picada cai... um mais ou menos dourado que o outro, ambos esperando pelos cubos de tomate e pelas pitadas de orégano.
Cozinha que se preze tem isso, não faltam essas coisas. Ao fundo toca Madeleine Peyroux: "J'ai deux amours".
Filé fateado, fritando, borbulhando entre dentes e cristais, exalando cheiro que se sente lá da rua.
Quem se põe a "ler" a receita de (de que mesmo?)... nem saberá entender que receitas inexistem. Nem Ford sabia no que dariam suas receitas. Eu sei que tempo e tempero, aquecidos na panela, douram entre si e "aguam" a minha boca.
Um dia tudo isso acaba, vou ficar com o cheiro daquilo frito, incrustado em minhas mãos.
Assim será, assim as darei (mãos).

Vestido estampado

Achei que "vestido estampado"
seria um belo nome para uma poesia.
Que triste quando se tem um nome
e não se tem os versos.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Escrita

O que você gostaria de ler? Sim, essa é uma pergunta que estou lhe fazendo. Leitura demanda prazer! Escrever demanda prazer, íntimo, próprio... prazer que vai até aos calos das pontas dos dedos.
Mesmo com rascunhos que poderiam ser publicados, só o que quero é escrever do nada. Se eu fosse um pouco [muito] talentoso, diria que gostaria de “transar” como transa Adélia: Aquela transa inocente, morta-viva das maldades. Não quero transar a escrita sem prazer:
- Ei, você que está aí, sem fazer nada, quer transar?
- Bom, eu? Ah! Pode ser, não estou fazendo nada mesmo.
E assim segue o ritmo desenfreado de quem não se propicia o prazer pleno da escrita desinteressada.
-Ah, e você? Quando vai escrever? Quando?
- Quando quiser, oh infinita droga! A gente escreve quando quer...
Assim bem disse Caio:
você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, “apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo”. Isso é escrever.

No fim, algo real vai acontecer, um sentimento de glória interior vai te tomar...
Saudações Adeliopradianas...

terça-feira, 9 de junho de 2009

Poema in cores

Door to the world
.

Tela de Laurie "Zeszut" - Santa Cruz, Califórnia-EUA

Quando a gente se põe a conhecer o mundo acaba por ter boas surpresas... temos o costume de achar que "alguns Bifurs são Bofurs e todos os Gloins são Bofurs, então alguns Bifurs serão obrigatoriamente Gloins"... Não entendeu? Falo daquela mania taxativa de dizer que certas pessoas são assim ou são assado. Temos a mania de achar, graças a xenofobia, que todos os americanos são "gloins". A Laurie, comumente chamada de Zeszut, é mais uma quebra da regra... Está para aparecer uma pessoa tão doce e simples, um amor de pessoa! Sensível, sempre feliz, amiga... com uma alma de artista. Faz toda a diferença.

domingo, 7 de junho de 2009

Ode a Cebola

Cebola,
luminosa redoma,
pétala a pétala
formou-se a tua formosura,
escamas de cristal te acrescentaram
e no segredo da terra sombria
arredondou-se o teu ventre de orvalho.
Sob a terra
deu-se o milagre
e quando apareceu
teu rude caule verde,
e nasceram
as tuas folhas como espadas no horto
a terra acumulou seu poderio
mostrando a tua nua transparência,
e como em Afrodite o mar distante
duplicou a magnólia
levantando-lhe os seios,
a terra
fez-te assim,
cebola,
clara como um planeta,
e destinada
a reluzir,
constelação constante,
redonda rosa de agua,
sobre
a mesa
dos pobres.

Generosa
desfazes
teu globo de frescura
na consumação
fervente do cozido,
e o giram de cristal
ao calor inflamado do azeite
transforma-se em ondulada pluma de ouro.

Recordarei também como a tua influência
fecunda o amor da salada
e parece que contribui o céu
dando-te a fina forma do granizo
a celebrar a tua luz picada
sobre os hemisférios de um tomate.
Mas ao alcance
das mãos do povo,
regada com azeite,
polvilhada
com um pouco de sal,
matas a fome
do jornaleiro no duro caminho.
Estrela dos pobres,
fada madrinha
envolta
em delicado
papel, tu sais do solo,
eterna, intacta, pura
como semente de astros,
e ao cortar-te
a faca de cozinha
sobe a única lagrima
sem magoa.
Fizeste-nos chorar mas sem sofrer.
Tudo o que existe celebrei, cebola,
mas para mim és
mais formosa que um pássaro
de plumas ofuscantes,
es para os meus olhos
globo celeste, taça de platina,
baile imóvel
de anémona nevada

e a fragrância da terra inteira vive
na tua natureza cristalina.



Pablo Neruda in Antologia de Pablo Neruda