terça-feira, 18 de agosto de 2009

Carta Literária

Terra do Nunca, 16 de agosto de 2009.

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Bárbara,

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Como explico essa carta? Tem idéia? Devo dizer que minhas leituras pedem, quando disponho de tempo, que eu escreva mais e não apenas linhas. Estava a “assistir” um DVD do Nando Reis quando abri seu e-mail, quis logo responder e saiu uma linha. Dizia eu: Entendi, o José Carlos vai vir... agora é minha vez de dizer ‘ai ai’, agora não poderemos nos ver”... achei pouco que fosse apenas uma linha, muito pouco em uma fase tão densa e de tanta inspiração para a escrita. Ah, antes que eu me esqueça, a música que tocava no exato momento era “segundo sol”, estava no comecinho do DVD, passei a manhã assistindo alguns filmes dos mais gostosos, gostaria que um dia os visse, mas são muito distantes do que acho que lhe atrai.

O dia está tão escuro, parece que o sol resolveu copular com o céu e se esconderam atrás das nuvens para que suas vergonhas não ficassem expostas. Tanto tempo, tanto tempo, tanto... que Rubem Braga se faz correto, sim, “ultimamente tem passado muitos anos”. Esse é um período muito intenso, de muita criação e vitalidade. Penso em muitas coisas, e tenho muitos sonhos, sonhos mesmo! Não daqueles de padaria, mas sonhos! Mesmo os pesadelos mais inomináveis e inexplicáveis não deixam de ser sonhos. Mesmo que o tempo não ajude na inspiração tenho conseguido escrever belas coisas, mesmo essa carta, não escreveria se não tivesse vontade, a escrita é coisa que corta, que marca... são nossos pensamentos que tocam o papel [ou nessa era de “modernidade”, tocam o teclado e se transformam em uns e zeros]. “Na minha boca agora mora teu sexo”... sigo ouvindo Nando Reis, “só é possível te amar”.

Achei melhor te escrever logo isso, daqui um tempo irei me sentir “vazio, seco, estéril, inerme, oco, esgotado e mais toda essa desvitalizada coleção de adjetivos”... Palavras de Fernando Sabino para Clarice Lispector que agora ouso usar nesta carta. E será da mesma forma, como se tivesse terminado um capítulo enorme de um livro. Achei que antes que isso acontecesse, e eu ficasse sem inspiração, devesse lhe escrever essa carta, não é poema, você sabe... mas é tão íntimo! Será que leu o que te escrevi? Um poema que escrevi só para você? Tem algum tempo, até hesitei em “publicá-lo”, mas o fiz, achei que nem que fosse nele, devia dizer sobre uma coisa que eu queria... e foi me lembrando de Haroldo de Campos que escrevi “... São”. Falei de tuas virilhas, com o prazer e com a intimidade de quem lhe falava aos ouvidos, resta a pergunta: ouviu minhas palavras? A barriga apertou? Tuas pernas tremeram? Bateram tuas plantas dos pés no chão? Quem sabe um dia não lhe mando este poema do Haroldo de Campos? É gostoso, o meu preferido do livro “Crisantempo”. Engraçado, ganhei este livro de presente de aniversário no dia 30 de novembro de 2002, e meu aniversário foi em setembro, e o mais engraçado nem é isso, é o ano. Se lembra? Um mês depois nos conhecemos... [risos] Fico pasmo com minhas lembranças estranhas e de pouco sentido, as lembranças das associações que faço. Tome nota por favor: Nando Reis começou a incomodar, não por sua música, que é linda, mas pelo que elas dizem e que me fazem sentido:

“eu não caibo mas nas roupas que eu cabia, eu não encho mais a casa de alegria. Os anos se passaram enquanto eu dormia e quem eu queria bem me esquecia. Será que eu falei o que ninguém ouvia? Será que eu escutei o que ninguém dizia? Eu não vou me adaptar... Eu não tenho mais a cara que eu tinha, no espelho essa cara já não é minha, é que quando eu me toquei achei tão estranho, a minha barba estava deste tamanho

Será que tem como tantas coisas baterem juntas assim? A música fala até da barba, e eu nem planejei isso, nossa última conversa eu falava das tuas virilhas, e inspirado pelo livro do Haroldo eu escrevi um poema só seu... um livro que eu ganhei um mês antes de te conhecer, e que tem uma poesia chamada “Rima Pretrosa 2”, que tem uma palavra que se repete e repete sem fim: “não”... igual ao que você disse uma vez por evento que mais tive a coragem ao seu lado... E essa carta? Será que vai apagar como faz com todos meus e-mails? Será que te passa na cabeça em como eu estou sentando e que caras faço ao escrever?

Bárbara, isso não é um e-mail... é uma carta, pensa muito nisso. Não escrevo cartas há anos! E se depois que eu a escrever ela virar fragmentos binários de uma lixeira, hei de ficar chateado. Eu nunca vou saber se eu te perdi ou se outra pessoa te ganhou, na dúvida, é melhor eu pensar que resolvi me doar à outras pessoas. O problema disso tudo, é a gente se transformar em objeto. Eu não quero isso nem para você nem para mim, porque te gosto muito, e você sabe disso.

O tempo nos fez miseráveis, tínhamos muito um para o outro, e não me dei e não se deu a mim... Acho que vai ter que dar um jeito nisso Bárbara, vai ter que ver e ouvir o tal DVD pois, eu não posso ficar escrevendo trecho por trecho do que canta e fala o Nando. All Star... tem coisas que falam nessa música que eu diria para você... e outras músicas mais: “Eu não posso entender essa vida tão injusta, não vou fingir que já parou de doer mas um dia isso vai acabar, eu não consigo me convencer que essa vida não foi injusta. Tanta falta me faz você, queria ver você em casa...”

Foi a última vez nessa carta que coloquei um trecho, mesmo querendo colocar um outro trecho, o que eu mais queria dizer, o mais sufocante, o que eu mais queria, que seria como um pergunta e um pedido eu não vou colocar...

Existe uma forma de escrever cartas? Receitas a serem seguidas como as de bolo? Se existem eu acho que acabei de jogar o bolo fora, nem te perguntei aquelas coisas de sempre e que todos escrevem: “como você está?”. Esquece essa pergunta, não a fiz e nem farei hoje e aqui... Você pode até não saber, mas, o melhor seria [e eu sei], que você estaria melhor ao meu lado, e nem precisaria te perguntar uma coisas dessas... você pode até achar que está bem, e pode até estar bem, mas, não como estaria aqui ao meu lado, nesses dias de escuridão. Seria o sol e o céu se escondendo lá em cima e nos aqui em baixo, tanto faz onde, poderia até ser embaixo das flores da cerejeira, estaria bom.

Eu te disse, joguei o bolo fora e não sei mais como se faz uma carta, tenho dúvidas de como eu deveria terminar esse bolo torto. Queria te dizer muitas coisas, então eu vou começar a te dizer para que tome cuidado com a pontuação dessa carta, para que ela não soe mais estranho do que deve estar soando. Leia baixinho para que ninguém escute, a carta é para você, para mais ninguém... leia baixinho e fazendo as devidas pausas das vírgulas, é que sou apaixonado por elas e pelos três pontos [...], disso sei que você sabe, só não sei se sabe como eu deveria terminar esta carta. Tem idéia?

Beijo, abraço, adeus?

Não sei, melhor que eu termine da melhor forma:

[...]


______
Minha estranha forma de fazer Literatura

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