quinta-feira, 25 de junho de 2009

O ameaçado


O ameaçado


É o amor. Terei de me esconder ou de fugir.

Crescem as paredes da sua prisão, como num sonho atroz. A bela

[máscara mudou, mas como sempre é a única. De que me

[servirão os meus talismãs: o exercício das letras, a vaga

[erudição, a aprendizagem das palavras que o agreste Norte

[usou para cantar os seus mares e as suas espadas, a serena

[amizade, os corredores da Biblioteca, as coisas vulgares, os

[hábitos, o jovem amor da minha mãe, a sombra militar dos

[meus mortos, a noite intemporal, o sabor do sonho?

Estar contigo ou não estar contigo é a medida do meu tempo.

O cântaro já se quebra na fonte, o homem já se levanta à voz das

[aves, os que olham pelas janelas já se escureceram, mas a

[sombra não trouxe a paz.

É, sei já bem, o amor: a ansiedade e o alívio de ouvir a tua voz,

[a espera e a memória, o horror de viver no sucessivo.

É o amor com as suas mitologias, com as suas pequenas magias

[inúteis.

Há uma esquina por onde não me atrevo a passar.

Já me cercam os exércitos, as hordas.

(Este quarto é irreal; ela não o viu.)

O nome de uma mulher denuncia-me.

Dói-me uma mulher em todo o corpo.


Poema de Jorge Luis Borges

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