domingo, 4 de janeiro de 2009

Tempo

É engraçado a experiência que temos de certas coisas. O tempo, por exemplo, é algo que me toma o pensamento muitas vezes, tal como esses tipos de lembranças da infância que fazem com que pensemos que a criança é o ser mais esperto, corajoso e medroso do mundo.
- Sim, tudo junto para não deixar espaço para possíveis dúvidas.
Certas experiências ficam como perdidas, e nem tem como tentar buscá-las, é só de repente que elas nos tomam, da mesma forma como muitos dizem que ninguém escreve, mas que a escrita é que nos toma.
Você já se viu mergulhado em alguma lembrança que vem do nada? Toma lugar e pronto! Não importa onde você está: na aula de metafísica, na reunião com empresários, em conversa formal ou informal... uma lembrança que seja, te tira o foco, e, tome risadas.
- Sim, risadas...
- Assim do nada?
- Sim, assim do nada!
Imagine se eu iria perder a chance de lembrar da minha infância! seria terrível se eu rejeitasse as lembranças que me batem a porta, esquecer das minhas certezas infantis? Nunca.
Certa vez, quando tinha cerca de seis anos, tomava o ônibus junto de minha mãe. Tinha a camisa marcada por uns respingos de sangue, o que me fazia ainda mais corajoso do que sempre me meti a ser, como se dissesse: “Olhem, eu o bravo... enfrentei aquilo que vocês todos temem” [pelo menos sempre temi]. Acabara de sair do dentista, só ele sabe o quanto eu gritei por minha mãe, eu os detestava! Todos. Sem direito a exceções... mas sai com a cabeça erguida, como se não tivesse gritado um vez sequer por minha mãe.
É claro que os medos da infância são os mais cômicos e ao mesmo tempo terríveis. Ah, seu eu não me lembraria do medo que eu tinha da minha primeira comunhão! Quantas vezes eu não quis desistir de ser católico só por causa da tal da confissão. Para mim eu estava era perdido, uma pobre criança condenada ao tenebroso inferno, na companhia de não menos terrível pessoa: o diabo! O diabo foi outro que não me deixava dormir. Coisa de criança.
Ao mesmo tempo em que eu ouvia com curiosidade uma tia dizendo dos “Segredos de Fátima”, ouvia com medo. Eu queria nunca saber o que a Senhora de Fátima disse a Lucinha (Lúcia me entenderá e perdoará por chamá-la assim). Minha tia costumava dizer que o terceiro segredo de Fátima era sobre o fim do mundo, o medo era bobo, mas eu o tinha. Ora, que o mundo terminasse bem longe de mim, e se fosse perto, que fosse ao menos tão rápido que eu nem percebesse. A gente cresce, e junto da mania de gente grande, vem a mania de ser “esperto”, a gente cria maldade, nada serve. Quando eu era criança tinha vontade de ir à uma boate, hoje nem me importo, e chego a ter ânsia de morte quando fico em casa de bobeira e ligo o rádio... valei-me santa Derci Gonçalves (eu sei que a senhora me entenderia, e depois que fiquei sabendo que prometeu fazer alguns milagres, eu rogo mesmo). É muito tuts-tuts. Coisa sem imaginação... como uma criança cheia de imaginação podia querer ir em um lugar tão maldoso e sem graça? [minuto] Vou anotar para não esquecer de responder quando eu voltar a nascer, vai que os kardecistas tem razão...
[pronto]
O melhor era ser nacionalista, e eu era! Não perdia um desfile cívico. Tudo bem que aquilo mais parecia tortura física para conosco, pobres criancinhas indefesas, sem poder contra a querida “tiazinha-professora”. [que de tiazinha nada tinham]. Costumavam dar até pão com salame, salame mesmo, não havia frescura para mortadela, e a gente nem se importava. Valei-nos suco de pozinho, do contrário nos entalávamos. Isso, essas "recompensas", nos fazia ainda mais nacionalistas.
O melhor são as lembranças da minha primeira namoradinha. Sim, aquelas que se pegava na mão, só isso e já achávamos muito bom. Ah! [tempo para o suspiro... indeterminado]. Minha namoradinha era uma graça, sempre andávamos no “carrinho de batida” juntos, ou íamos no pula-pula quando haviam festas grandes na cidade pequena, coisas que no interior quase não aconteciam. Saudade daquele tempo. Hoje estou barbudo pensando no que teria vindo primeiro, o ovo ou a galinha [com coisa que irei descobrir], mas por favor, não me revelem isso, seria pior que o terceiro segredo de Fátima.
Ah, minha namoradinha está casada e com dois filhos. Ironia? Não, realidade eloqüente demais. Se eu pudesse voltava no tempo.

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