segunda-feira, 29 de setembro de 2008

100 anos de vida "póstuma"


Visio

Eras pálida. E os cabelos,
Aéreos, soltos novelos,
Sobre as espáduas caíam . . .
Os olhos meio-cerrados
De volúpia e de ternura
Entre lágrimas luziam . . .
E os braços entrelaçados,
Como cingindo a ventura,
Ao teu seio me cingiram . . .

Depois, naquele delírio,
Suave, doce martírio
De pouquíssimos instantes
Os teus lábios sequiosos,
Frios trêmulos, trocavam
Os beijos mais delirantes,
E no supremo dos gozos
Ante os anjos se casavam
Nossas almas palpitantes . . .
Depois . . . depois a verdade,
A fria realidade,
A solidão, a tristeza;
Daquele sonho desperto,
Olhei . . . silêncio de morte
Respirava a natureza —
Era a terra, era o deserto,
Fora-se o doce transporte,
Restava a fria certeza.

Desfizera-se a mentira:
Tudo aos meus olhos fugira;
Tu e o teu olhar ardente,
Lábios trêmulos e frios,
O abraço longo e apertado,
O beijo doce e veemente;
Restavam meus desvarios,
E o incessante cuidado,
E a fantasia doente.
E agora te vejo. E fria
Tão outra estás da que eu via
Naquele sonho encantado!
És outra, calma, discreta,
Com o olhar indiferente,
Tão outro do olhar sonhado,
Que a minha alma de poeta
Não vê se a imagem presente
Foi a imagem do passado.
Foi, sim, mas visão apenas;
Daquelas visões amenas
Que à mente dos infelizes
Descem vivas e animadas,
Cheias de luz e esperança
E de celestes matizes:
Mas, apenas dissipadas,
Fica uma leve lembrança,
Não ficam outras raízes.
Inda assim, embora sonho,
Mas sonho doce e risonho,
Desse-me Deus que fingida
Tivesse aquela ventura
Noite por noite, hora a hora,
No que me resta de vida,
Que, já livre da amargura,
Alma, que em dores me chora,
Chorara de agradecida!
Machado de Assis

Em lembrança aos 100 anos de morte de Machado de Assis


terça-feira, 23 de setembro de 2008

Idéias de um mínuto

        Essa coisa de tempo é mesmo estranha, continuo com a idéia de Machado de Assis “matamos o tempo o tempo nos enterra”... A questão do que fazer, quando fazer, e para que fazer, onde fazer... Kant deve ter esgotado sua paciência pensando nisso tudo, eu como bom ametódico não consigo. De outra forma, todos esses caras, de falas difíceis e pensamentos indecifráveis, poderiam estar se despedindo de mim, mas o tempo que corre é o mesmo que nos segura os pés, e agora isso fica muito claro. A corrida nem sempre é para vitória, nem sempre é para chegar em primeiro lugar.

        Eu bem que estava preparando um belo tópico de despedida, como se fosse profeta das questões do tempo... eu bem que iria dizer como foi bom os últimos quatro anos, como foi tudo tão intenso e vivo. Já não sei, Maria José das minhas aflições! Haja vista que não tem conselho no mundo, ao menos neste momento, que se equipare ao “seja reprovado”. Alguém por acaso já ouviu um conselho desses? De um professor? Mas calma, tudo tem explicações... é que quis matar o tempo, fui estudando e estudando ao passo que descobri que não estudei nada, ou quase nada do que eu queria, agora chega a hora de sair e embora mundo afora, mestrado? Virar mendigo? Isso eu já sou. Vivo mendigando aos colegas do curso de letras que leiam o que eu escrevo, eu faço verdadeiro terrorismo. Isso sobre o tempo é sério, e o poeta argentino Martin Fierro está certo: “O tempo é a tardança do que está por vir”.

        A coisa é séria, não posso mais continuar com vínculos na faculdade, meu tempo está acabando... quatro anos na faculdade e fiz quase todas as disciplinas do meu curso, então a faculdade vai me expulsar por ter sido um bom “aluno”... só me resta ser reprovado, aí ano que vem eu volto como quem não quer nada [e tome trote nos meus calouros]. Pensem só! Eu até que iria fazer um novo vestibular, mas esse nosso querido reitor é mesmo uma faca de dois gumes, é um ser indeciso [e tome críticas], ao mesmo tempo que ele quer socializar a faculdade com cotas ele eleva o valor da inscrição do vestibular, isso é elitizar e não dar oportunidades. Se eu for me inscrever em mestrado e em vestibular, além de ficar doido, corro o risco de ficar mais pobre do que já sou [tome risos]. De qualquer forma, eu que nunca gostei de puxar saco, tive minhas boas notas com o suor da labuta com os livros, me vejo disputando vagas em mestrado com os mais capciosos e matutos... aqueles que agradaram [lesse puxaram o saco] os professores desde épocas remotas [tome tempo]. Eu comecei falando de tempo, e estou terminando isso tudo falando de tempo. Acho justo, menos justo é minha escrita sobre todas essas indecências acadêmicas. Queria era mesmo escrever só sobre o tempo, aquele que eu governo, que fala comigo, bem cantou Takai: “Tempo mano velho... tempo amigo, seja legal, conto contigo...”

        Haja cinema francês para curar a desmedida dos meus medos como formado! Ainda não sei se me formo, se não me formo ou se me formo pelas metades. Que falta me faz uma Clarice para trocar cartas, ela me entenderia.

         Mas esse não é o fim de tudo, só os mortos conhecem o fim da guerra” [Platão] e eu ainda não comecei a guerra.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Romântico

       Pensar na educação como saída dos problemas enfrentados pela sociedade pode parecer ainda utópico, mas se alguém assim me disser perguntarei: “pessoas como Paulo Freire foram sonhadas ou existiram?” A grande utopia que reina dentro da sociedade, e incorporada pelas políticas pedagógicas é que nada podemos fazer, que devemos aceitar tudo de bom grado, sem questionar, sem criticar, sem nos posicionarmos diante das situações e conflitos que emergem na sociedade.

Não há aqui nenhuma pretensão de fazer teoria ou de tornar um agente perfeito em todos os aspectos sociais, mas não se pode ser fraco e medroso evitando encarar a educação e buscá-la em seu íntimo sem seus vícios, lutando para sair de suas ideologias podres, perenes e caducas. Se alguém dissesse que nada ganharia em uma jornada que busca na educação uma saída para o mundo, eu diria que não quero sair do mundo, muito pelo contrário, quero adentrá-lo, mas com os olhos de quem sabe que este mundo pode ser tão bom quanto qualquer sonho infantil é. Se alguém me dissesse que isso seria um erro ou perda de tempo, diria eu que errar é querer acertar pelos outros e se furtar de tentar ao menos, que seja, errar.

Minha disposição é buscar, querer aprender, ali junto de outros... Não quero pensar a sala de aula como um laboratório, mas como um local rico em vivências, em sentimentos, em dores, em prazeres, sorrisos e lágrimas. É por isso que já há um tempo estou denunciando e me policiando de usar uma palavra simbólica, porém impregnada de violência: Aluno!

Eis pois em sala de aula o “aluno”, o sem luz? Seria este? Sem luz somos nós que apagamos a chama de nossos sonhos para delirarmos na escuridão da realidade que temos como imutável! Este que chamam de "aluno", tem tanta luz quanto qualquer um de nós, que envelhecemos enrijecidos e engessados por ideologias mesquinhas, que respondem inutilmente e erroneamente sobre a vida. Será em respeito à educação e ao ser humano que ensina tanto quanto aprende, que estou arremetendo o uso dessa palavra, tentarei nos anos que se seguem encontrar uma que soe com tanta suavidade e respeito a aquele que está sendo torturado dia a pós dia com conteúdos massantes. Por enquanto a palavra mais doce que encontrei foi “educando”. Contudo, não creio que apenas isso resolverá os problemas do mundo, isso seria mais uma violência, apenas trocar nomes não resolveria nada, e é por isso que tentarei ao máximo doar a disponibilização da Educação, tendo nela vida nova, sem ideologias, sem utopias, apenas real...

sábado, 6 de setembro de 2008

O olhar

Acidente
estrada
viagem
parentes
estrada
linha
casa
dois andares
estrada
carros
rodovia
festa
prédio
almofada
cerveja
[o olhar faz o poema]

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Repúdio a ignorância política ou à politicagem?

Qual seria a verdadeira posição política? Se muitos dizem que "o pior analfabeto é o analfabeto político", cabe a pergunta: afinal o que é ser político? Ou politizado?
Não creio que político seja aquele que esta em um partido "x" e defende as ideologias decadentes desse partido, por acaso isso não seria deixar de pensar? Não seria ser ignorante político da mesma forma? Como ficamos? Pensaremos por nosso engajamento dentro da sociedade ou dentro de um partido com seus discursos cheios de intencionalidade?
Ao sermos fiéis à ideologias partidárias não é ajudar na manutenção da ignorância política? Muitos pensam que comungar com ideologias fracassadas é ser politizado... isso é balela.
Acham que um governador, presidente, deputado, ministro (ou o que seja) está fazendo um bom trabalho por ser do partido x ou y... isso é continuar na ingenuidade. Aquele que está dentro de um cargo por acaso não recebe para trabalhar? Ele não recebe diante dos impostos que a população paga? Se recebe, o mínimo que tem que fazer é trabalhar, e trabalhar muito! Por vezes uma pessoa mal come, mas se come está pagando impostos embutidos para a manutenção de um sistema com seus salários e status.

Por acaso um senador ou deputado que queira agir de uma forma diferente do que o resto do partido quer é visto com bons olhos? O que vai ocorrer se ele pensar por ele mesmo? Vai ser expulso do "amado e glorificado" partido!


Essa formação democrática que temos só faz com que as CPIs beneficiem determinados indivíduos que ocupam cargos públicos (alguns políticos de mesmo partido), que este indivíduos sejam ajudados pelos seus mui bem intencionados colegas que seguem o mesmo partido ou mesmo lado... e o lado do povo como fica? Foda-se o povo? O partido e seu ideal é mais importante? Assim que é certo?

Para muitos, os partidos são o braço que sustenta a posição messiância que ainda seduz, e portanto essa será uma coisa que se ouvirá por muitos anos...
Ficam aí ladrando sobre o partido x e o y e não notam que tudo é farinha do mesmo saco, que já se nascem sobre a tutela da manutenção do poder... Para que serve um partido? Isso é o que todos deveriam se perguntar, e quando acharem a resposta deveriam perguntar para que servem suas ideologias e onde elas nos levaram até hoje.

A profunda adequação ao agir partidário é a negação da identidade e o aceitar da objetivação concreta. É torna-ser dentro de um sistema mecanicista que usa de seus componentes para se manter.

Notem que não é distante a lembrança de pessoas que foram expulsas de partidos por não concordarem com mudanças partidárias...

Se o partido é a forma como as pessoas tem, dentro da democracia, para se elegerem, ele deveria se ater nisso... o partido não deve ser o seguimento das decisões sociais... A forma como é concebida hoje se tornou a negação do sujeito emancipado com sua consciência crítica. Na realidade, é dessa forma que se processam as mudanças formais para mudanças ontológicas...
Se antes a finalidade era a de visar os resultados públicos e sociais, e para tanto, usava-se a instituição “partido” para chegar até a finalidade, hoje a manutenção do partido e do poder se torno fim em si mesmo. Para isso os partidos conservam seus discursos intencionalistas e problema do social se os resultados públicos não aparecem, isso deve ser futilidade também, e se não for futilidade, os partidos devem pensar nisso como acidente: se conseguem fazer alguma coisa pelo social obtendo resultados públicos tudo bem, se não conseguem, não há problema uma vez que também não foi o realmente desejado. Será que é assim que deveria "funcionar"?
Acusam a visão crítica da sociedade [por sua inoperância] de desvio individualista, que seja... mas se esses seres, que forem tidos como individualistas, estiverem limpos dessas ideologias fracassadas, menos mal.

A consciência parte do singular, de um indivíduo e não de um coletivo partidário, ou de um grupo religioso... a consciência que venha partir de grupos, não é consciência, é ideologia que já nasce fadada a decadência e auto manutenção.

Aliás, não é em quem vão votar, é em qual partido vão votar... não vejo minha consciência suprimida só porque não me vendo à ideologias corrompidas...
talvez alguém possa se sentir despreparado para isso por causa de ideologias que colocam tal condição de incapacidade (como forma de auto-manutenção muito usada) na cabeça de quente se rende a ideologia. Ela é algo sobre natural, quase um ser vindo de deus, um messias... ah se não fosse a ideologia! Então o que é suprimir? Pensar individualmente ou deixar que pensem por você?

As pessoas continuam aderindo a essa estrutura decadente. Se um candidato que lhe aperta a mão e lhe dá abraços hoje ganhar amanhã, ele não deve ser visto como salvador da pátria... ele é empregado de quem vota nele, isso é algo que deve ser lembrado sempre! Quem paga os salários dele é o povo, ele não tem que se irritar com o povo por cobrar isso ou aquilo, do contrário ele não deve se candidatar querendo apenas salário ou servir-se do status a formular um status quo, algo que diga de permanência ontológica e não uma condição formal que é passageira.

O homem da pólis é o homem da cidade que tem contato com outros homens e com eles resolvem seus problemas por meios que seguiram desde as discussões da Grécia antiga até o formato político democrático que temos hoje. Mas quero voltar ao que você comentou, o sujeito que é partidário, e que segue cegamente as idéias do partido, parece ser apolítico, ele deixa de viver a sociedade para viver ideologias, como ele poderia ser político se esquece dos problemas da sociedade e deixa de pensar por ele próprio para seguir a pragmática dos partidos? Ou seja, como seria político se está fechado dentro de um mundo idealista?

partidário, por vezes, parece tanto mais apolítico que qualquer apartidário que seja... o cara que diz que detesta política hoje em dia, na realidade deve estar se referindo a politicagem pois, uma vez que vive em sociedade junto de outros homens, é um ser político... e aqui tomo as palavras de Aristóteles se referindo ao homem como um animal social, político...

Acho que isso é o mais interessante da política, a verdadeira política! Esquecermos certas idéias que temos como verdadeiras por descobrir que dentro de contextos diferentes, ou para pessoas diferentes essas idéias deixam de fazer sentido, desconstruímos conceitos para aprender que dentro de um todo existem conceitos ainda mais importantes, um partido ou um político não deve tomar as decisões para eles próprios, mas para a sociedade.

A primeira pessoa que admirei por causa de suas idéias foi Voltaire, acho que não existem palavras vazias ou argumentos tolos quando se toma suas palavra "posso não concordar com nada do que diz, mas defenderei até a morte o direito de dizer", e por mais que possa parecer estúpida as palavras de quem debate contigo, elas são muito válidas, esse é o espírito da verdadeira democracia.

Creio ser Rousseau tão genial quanto Voltaire... O Iluminismo trouxe grandes benefícios para a sociedade, porém, com a idéia do cientificismo veio nascer o positivismo... e toda a degeneração social.


Ao ler o Discurso sobre as ciências e as Artes de Rousseau, nota-se que ele já faz críticas a degeneração das ciências, das artes e da cultura desde Roma e Grécia antiga.

Tomar a história como algo morto é o que sempre me intrigou em pensamentos mitigados como muitos demonstram ter... O que você, eu, e outras pessoas vivem, são relações da gente com o mundo, e com fatos que ocorreram no passado.
Mantemos um vínculo fortíssimo com o que é histórico, e ainda bem que isso ocorre, seria uma grande barbárie deixar acontecer novamente coisas como Auschwitz e para que isso não torne acontecer, devemos pensar que para tal trabalho temos a história nos ensinando a partir de nossos erros.

Não sejamos politiqueiros!