Domingo, 12 de Julho de 2009

Galear

Guardo em guardanapos os poemas e pequenos romances escritos, guardo para um dia não saber o que fazer. Sonho meu acordar dormindo... desta forma, confuso, pois é assim que acontece. Em meus sonhos as pessoas do passado renascem, livros amarelos surgem nas estantes com os preços mais impensados, e eu, eu surjo em meu caminhão. Mas sonhos são assim, sem sentido algum. Se tivessem sentido também não saberia dizer o que sentir. Saudações às saudades. Saudações às linhas confusas que saem de algum lugar. Todas as cacofonias são friamente calculadas.
Com o tempo livre, meu astral aparece em galerias e exposições de arte. Minhas mãos sempre seguram alguma taça com vinho, ou copo de plástico com cachaça envelhecida. Sentidos sem nexo em anexo.
O dia a dia é pior que os “Çonhos” [não é erro, não é por acaso]. Esculturas, gravuras, pinturas, fotografias e filmes... Vejo estrelas cadentes no brilho de lâmpadas e tão pouco consigo explicar os nebulosos nós que me fazem ver na madeira galáxias e órbitas. Aquarelas com cartões e costuras e as voltas ao mundo que podem ser dadas. Dadas, dados, de graça...
Vi o tempo passando em frente meus olhos e as horas me sorriram, mas isso é outra história.

Sábado, 11 de Julho de 2009

Apus

Tem dias que a gente se inspira e se põe a dizer frases curtas e catastróficas, tão catastróficas e profundas que nem fogo apaga do papel e nem chuva desmancharia na areia.
Quem se põe a “ouvir” conseguiria tirar da mente?
Isso já não sei dizer, hoje estou criando, não li nem ouvi nada além do vento sussurrando e “Voyage voyage” no rádio.

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Vago

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Laerte - Piratas do Caribe. in Folha de São Paulo.

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

O ameaçado


O ameaçado


É o amor. Terei de me esconder ou de fugir.

Crescem as paredes da sua prisão, como num sonho atroz. A bela

[máscara mudou, mas como sempre é a única. De que me

[servirão os meus talismãs: o exercício das letras, a vaga

[erudição, a aprendizagem das palavras que o agreste Norte

[usou para cantar os seus mares e as suas espadas, a serena

[amizade, os corredores da Biblioteca, as coisas vulgares, os

[hábitos, o jovem amor da minha mãe, a sombra militar dos

[meus mortos, a noite intemporal, o sabor do sonho?

Estar contigo ou não estar contigo é a medida do meu tempo.

O cântaro já se quebra na fonte, o homem já se levanta à voz das

[aves, os que olham pelas janelas já se escureceram, mas a

[sombra não trouxe a paz.

É, sei já bem, o amor: a ansiedade e o alívio de ouvir a tua voz,

[a espera e a memória, o horror de viver no sucessivo.

É o amor com as suas mitologias, com as suas pequenas magias

[inúteis.

Há uma esquina por onde não me atrevo a passar.

Já me cercam os exércitos, as hordas.

(Este quarto é irreal; ela não o viu.)

O nome de uma mulher denuncia-me.

Dói-me uma mulher em todo o corpo.


Poema de Jorge Luis Borges

Domingo, 21 de Junho de 2009

Marca


O seu baton, meu bem,
marcou mais que meu colarinho.
Agora passo um "sabão" em meu coração:
Não se entregue! Não sou responsável.

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

Agenda

Nunca gostei de escrever como se estivesse escrevendo em uma agenda, ao mundo cabe (merece) mais que meus dias... sei porém, que todas as coisas que escrevo tem um simbolismo maior que teria minha agenda, mesmo que eu não escreva.
Todo esse silêncio que tomou conta dessas minhas linhas tem motivos: tensão e, talvez, superstição. Mas enquanto a tolice toma conta das paranóias da mente o mundo gira, e a Pitt é que me desculpe, mas ele não gira devagar.
Tudo nesses dias salta dos tons de cinza ao colorido. Começo até a achar que sei alguma coisa. Deixei meu "nome" para adotar outro: agora professor, pelo menos me chamam assim na escola, e eu gosto muito. Mesmo em meus pensamentos mais deslocados não previ isso, não previ como seria tão bom!
Em breve deixarei o bacharelado, pois o discurso me sorriu... vou pesquisar, talvez um dia seja doutor [juntos riremos]. Por hora me dividirei em talvez professor e aprendiz. Quando eu já pensava em mil desculpas, quando pensava em planos 'B's" a notícia me toma, lendo Rubem Alves, sentado (recostado) na mesa. Quando já pensava em drásticas mudanças, heis que me descubro mais aqui do que achava... nunca fui tão comum, nunca fui um "lugar comum".

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

De repente

As pessoas costumam dizer do passado, do presente e do futuro sem notar que se esqueceram de um tempo incabível de ser descrito por verbos e conjugações: "de repente".
De repente tudo acontece ou nada acontece... as flores murcham, os dias viram noite e vice-versa. De repente a boca morde e sente o gosto amargo ou doce do chocolate tocar a língua... e de repente, não mais que de repente, tudo isso se transforma em mera saliva.
De repente o sol da tarde transforma a loira de branquinha em morena jambo (queroperto), transforma as festas agitadas em preguiça (santa - ou não) do dia seguinte.
De repente... tempo mesquinho. Algumas vezes, muda tudo aquilo que levamos uma vida para nos acostumar. A gente se forma, começa tudo de novo... A gente chora, seca tudo de novo. Ama, sofre e recomeça tudo de novo... de repente, só de repente.

Sábado, 13 de Junho de 2009

Carta dissidente

Eu mentiria se eu dissesse que não sinto medo, e que intervalos de uma música e meia não são eficazes para derrubar uma pessoa forte. Sinto nos dedos a textura do verde do gramado do nosso jardim.
Assim te digo que meu francês não destoa do seu, que não faço bicos porquê não sei competir com os seus e tampouco chegaria a "molequês" de sua alma.
Um ou outro cd, Pato Fu ou Cazuza, conseguem fazer com que eu viaje km's de distância só para cair em teus braços, tendo seu sorriso refletido em espelhos d'água e seus olhares cortando vãos e hall's.
Essa é apenas uma carta dissidente.

Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

Sobre receitas

Dentes de alho, cebolas cristalinas... cada coisa picada aos seus tantos, esperando a manteiga derreter, esperando para serem douradas como as garotas de Copacabana sob o sol de Janeiro.
A brasa esquenta... o alho picado cai, a cebola picada cai... um mais ou menos dourado que o outro, ambos esperando pelos cubos de tomate e pelas pitadas de orégano.
Cozinha que se preze tem isso, não faltam essas coisas. Ao fundo toca Madeleine Peyroux: "J'ai deux amours".
Filé fateado, fritando, borbulhando entre dentes e cristais, exalando cheiro que se sente lá da rua.
Quem se põe a "ler" a receita de (de que mesmo?)... nem saberá entender que receitas inexistem. Nem Ford sabia no que dariam suas receitas. Eu sei que tempo e tempero, aquecidos na panela, douram entre si e "aguam" a minha boca.
Um dia tudo isso acaba, vou ficar com o cheiro daquilo frito, incrustado em minhas mãos.
Assim será, assim as darei (mãos).

Vestido estampado

Achei que "vestido estampado"
seria um belo nome para uma poesia.
Que triste quando se tem um nome
e não se tem os versos.