segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Sobre meu mundo

As cores que uso para pintar minha paisagem são as cores que a paisagem me dá. Não quero demais inventar o mundo, a mim me basta inventar o meu mundo... cheio de nuvens, chuviscos, de sol e tempestade. Toda a contestação da caixa de ferramentas guardo para o meu mundo... Nesse sim, eu uso as cores e mais cores. As vezes, só as vezes, empresto a contestação para o mundo alheio.
Um dia de chuva será um dia de chuva até que digam outra coisa, que reinventem seu nome, que reinventem sua função. Um dia de chuva, na episteme do meu mundo, é um dia para regar flores e dançar na chuva. Se construir o mundo de todo mundo que graça terá o meu? Não terá graça... é por isso que meu mundo é diferenciado, podes entrar. Deixo conhecê-lo.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Poeminha Sentimental

O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.

Mário Quintana in Preparativos de viagem

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Onde Andará Dulce Veiga

É foda, sem Ph mesmo, mas estou esgotado. O mundo está aí, cheio de músicas, livros e filmes... e quais você vê? Ah, normal. Será sempre aquele filme que te disseram ser bom, ou aquele livro de quem falaram maravilhas. Eu pessoalmente ainda não acabei de ler "As cidades invisíveis", nem sei se sou obrigado. Acontece que uma coisa é para um e não para todos. Nem todo mundo tem paciência para se drogar e dançar feito barata envenenada nessas "baladas" intituladas psy qualquer coisa. Mas o que eu digo serve pra mim, não quero ser senhor das tuas vontades e assim como o poeta disse a si "vai Carlos, ser gauche na vida" eu digo, vai... vai ser barata em nights sem alma. Porra caralho, vai se fuder... porque não pega a droga daquele filme que você viu na estante, quis assistir, mas não o fez porque alguém disse algo como "pow, aluguei esse filme, dormi na metade"... caralho, vai ser preguiçoso assim no raio que o parta.
É das piores verdades, mas nos acostumamos demais a ir com os outros. Para ler, para ver, para ouvir, para fazer... a gente só faz o que algum crítico mesquinho do seu próprio umbigo diz para fazer. É o cúmulo da alienação cultural. Vai tirar as tuas próprias conclusões antes que se descubra velho demais para se levantar da cadeira de balanço, atravessar a rua e depois descobrir que não tem um puto no bolso para alugar aquele filme, ou então para descobrir que aquele livro não é mais editado e não o encontra na biblioteca do centro da cidade, aquela que está meia hora de ônibus da tua confortável e burguesa casa. Nem me venha com o papo de preguiça, se preguiça fosse, realmente, levada a sério ninguém transava. Vai dizer que tem preguiça de transar? Tem? Ah... se for assim, a coisa está feia. Vai poder dizer que não tem tesão, mas se disser que tem preguiça, aí vai ter é que procurar um terreiro e tomar banho de sal grosso.
Enquanto isso, porque alguém disse que a Disney era bom, todo mundo vai para aquele parque, cidade, puteiro ou sei lá o que aquilo é na verdade. Eu não vou [ponto]. E não vou porque não me disseram para não ir, nem tão pouco porque me disseram para ir... já passei da adolescência. Passei daquele tempo que não fazia o que uns diziam para fazer e fazer o que outros ou mesmos diziam para fazer. Não vou porque não quero ir, não tenho vontade, não me apetece... quer mais desculpas? Não vou porque tenho outra coisa pra fazer. O que? Xingar, esbravejar, fingir de velho ranzinza que fala mal da televisão, da pracinha, da placa que colocaram na esquina, do cheiro da gelatina na geladeira, da cor dos ovos da galinha ou sei lá... é o que vier na hora, o que a vontade falar é que vou fazer. Se for o caso, talvez nem faça nada. E não o farei se for da minha vontade, e não deixarei de fazer porque disseram para não o fazer.
Já ouvi bastante minha mãe. E ela me fala bastante. Está bom, satisfeito assim... mas também não vou gostar do "Anticristo" porque todos gostam. Vai ver eu prefiro o "Vento levou", mas não prefiro mesmo. E depois nem sei se a gente tem que preferir alguma coisa. Mas prefiro mesmo assim.
Essa coisa de escolha é mesmo foda. Te dizem que você é livre para escolher mas te obrigam a escolher. Que droga de escolha é essa que te obrigam a fazer? Se você liga para a operadora de telefonia, ou a companhia de gás... se vai tomar banho. É escolha demais. Se continuar assim acabarei como Fernando Pessoa, vou criar um monte de heterônimos com personalidades, RGs, CPFs, endereços... cada um vai ficar incumbido de fazer algumas das escolhas. "Adorno ou Benjamin ?" Essa vai para o meu heterônimo número tanto decidir. "Malu Magalhães ou Ivete Sangalo?" Adio, a escolha. Essa nem eu nem nenhum heterônimo será obrigado a fazer. Paris ou Coimbra? Qualquer uma, sei lá as duas, pode ser? Pode! Te falaram como é lá? Dizem que em Paris blá-blá-blá... e em Coimbra blá-blá-blá... leva isso que faz frio e se eu fosse você... Pode parar! Se... mas você não é. Deixa cá que eu escolho, e escolho muito bem a ponto de me arrepender e tudo mais. Se arrepender deve ser bom. Não é igual aquele cara que junta dinheiro
no porquinho uma vida inteira, o porquinho que ganhou da sua avó, e compra um carro. Ele queria uma cor que não se lembrava, com itens de série que ele viu passar no comercial da TV no intervalo daquele programa esportivo, sabe qual é? Pois é, se arrependeu. Mas para não dar a cara a tapa finge estar satisfeito... no fundo sabe que queria era um fusquinha 68.
obs.: e vai sendo avisado. Isso aqui não foi terminado.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Uni-forme

Ter-te perto realçava minha pretensa certeza de que eu controlava algo no meu cantinho do mundo. Agora, machucado, um pedaço de mim pra longe vai e meus olhos vertem sangue na insônia - noite adentro. Voltar pra casa não faz sentido, ir para além de casa já não faz sentido. Sei da falta que meus cabelos sentem dos afagos de tuas mãos, verdadeiramente "poemas de cinco dedos que revelam, sem querer, todos os segredos de tua alma de mulher", e o brilho dos teus olhos se tornam o título dos meus dias felizes.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Cicatrizes

Enquanto chove lá fora, me escondo em meu castelo invisível, proteção do resto do mundo. Queria poder te olhar nos olhos e perguntar o que foi feito de ti e de tuas certezas - que as tuas revelações esconderam de nós em algum momento de nossas vidas. Das tuas escolhas só me restam minhas cicatrizes - "tão a flor da pele" - que trago esse tempo no qual minhas veias formam extensos boulevards. Mas, de teus espinhos, talvez saiba disso, nada mais resta. Tua face branca que não haverá de ser fantasma e tão pouco irá me espantar da vida.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Movimento


Imagino, dia e noite,
os movimentos do teu sorriso estático
nos papéis de fotografia,
causando inveja às paisagens.
Imagino nua, despida de roupas e pudores,
e vestida de uma alma de seda e cetim.

domingo, 3 de janeiro de 2010

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Tudo o que prometo
é não morrer de inspiração
e, muito menos, de espirração.
Talvez de tosse, apenas talvez!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Vontade de Clarear

Acima da cintura, nos teus anéis de Saturno, nos contornos da esquina de tua nebulosa, onde se motivam as revoluções labiais, é lá... que as esperanças se encontram, onde os pedidos são feitos, com sorriso de um lado, com sorriso de outro, com respostas de um lado, com surpresa do outro. Caminhos, caminhos pelos quais as mãos percorrem, sem espinhos...

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Tlön, Uqbar, Orbis Tertius

(...) Uma outra escola declara que todo o tempo já se passou e que nossa vida é apenas a lembrança ou o reflexo crepuscular, e sem dúvida falseado e mutilado, de um processo irrecuperável. Outra, que a história do Universo - e nesta nossas vidas e seu mais ligeiro detalhe - é a escritura produzida por um deus subalterno para entender-se com um demônio. Outra, ainda, que o Universo é comparável a essas criptografias nas quais todos os símbolos não têm o mesmo valor...

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Jorge Luis Borges in TLÖN, UQBAR, ORBIS TERTIUS (conto).

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O preço do poema

Procurar pelo poema nos entre dedos, não é como procurar uma nota surrada no bolso da calça. O poema não tem valor algum, não devia ser posto a venda. Quem o pagará? Servirá então, após o pagamento, apenas como moeda de troca? Até quando poemas servirão como para serem vendidos como batatas fritas em lanchonetes nas esquinas? Caneta que toca o papel virgem, criando rimas, remoendo intenções, não diferencia folhas de ouro de papel de pão, pois a alma do poeta é rica, mais rica que todo o ouro do mundo. Duvida?